Entrevista: .faso - marcamaria

Não, ele não é o Pink, mas planeja conquistar o mundo. E sim, finalmente temos um exemplar do sexo masculino como entrevistado do BananaCraft. E não é qualquer exemplar… O Faso é uma daquelas figuras inesquecíveis - tanto pelas tiradas hilárias quanto pelo talento único.

Nome: Fábio Sousa ou simplesmente .faso
Profissão: Bonequeiro, ilustrador e criador de personagens
Projeto social: www.mundesign.org
Blog/site: www.marcamaria.com
Flickr: www.flickr.com/photos/mundesign
E-mail: faso@marcamaria.com

-Você é o primeiro homem a ser entrevistado aqui no BananaCraft. Então eu preciso perguntar: quando criança, você brincava com brinquedos de menina ou era um garoto típico?
Defina “típico” (risos). Brincadeiras à parte, exceto por não gostar de esportes (até hoje eu não tenho time ou gosto de futebol), acredito que fui um garoto típico. Meus brinquedos prediletos eram - e são - os bonecos (”figuras de ação” - agora estou tentando entender “qualé” das Blythes, Pose Dolls e Ball Jointed Dolls). Sempre que alguém me via pululando por aí quando criança, eu estava com um bonequinho na mão.

Tenho que confessar que uma vez eu tentei brincar com Barbies (da minha irmã) - calma! deixa eu explicar!! Eu havia ganhado um boneco do Serginho Malandro (que inclusive fazia “glu-glu”) e queria arrumar uma namoradinha para ele (eu só tinha monstros musculosos com tanguinhas de pelúcia, tipo He-man), mas as Barbies não gostaram muito do beicinho dele (risos), aí acabou não rolando. Fora que as Barbies sempre me assustaram!!!

-Como o .marcamaria nasceu? Quais foram as inspirações iniciais?
No final de 2005, eu iniciei uma pesquisa científica, que pretendia analisar como utilizar o design para melhorar o ensino de literatura para crianças. Como forma de expor as minhas idéias para os meus orientadores, eu criei um blog chamado .mundesign, que acabou se tornando um projeto social dedicado a usar o design para melhorar a vida das pessoas. Eu sempre fui contra depender de doações de dinheiro ou viver de licitações do governo para sustentar a minha ong, então vi-me na necessidade de criar uma empresa para sustentar esse projeto; é aí que surge .marcamaria.

Inicialmente era apenas uma empresa de design comum, mas com a descoberta da macaquinha Fabine (foto acima) me vi tentado a mudar de ramo. Ainda bem! X)

Então literalmente juntei os trapos com a minha namorada e sócia, a Aline (foto abaixo). Foi com ela que eu aprendi a costurar e a acreditar em meus sonhos (aliás, se você observar o rodapé do blog, lá está escrito o nosso lema: “nunca desista dos seus sonhos”). Diferentemente de mim, minha moça tem um emprego normal e nos finais de semana e nas horas de aperto ela surge para me salvar! Mas estamos batalhando para que os dois possam se dedicar exclusivamente ao mundo bonequeiro.

Para quem não conhece, o .marcamaria é um blog onde qualquer pessoa pode dar os seus pitacos no desenvolvimento das histórias dos personagens. Levamos seis meses para chegar nesse modelo de co-criação, pois queríamos que todos pudessem sentir como é gostoso e divertido criar. Neste contexto, os bonecos são uma forma de viabilizar financeiramente esse sonho. Aguarde que em breve estaremos lançando a primeira bonequinha criada de forma coletiva: a Vovólima (a senhora em pé no meu ombro - primeira foto).

-Como funciona a sua rotina de trabalho? Você trabalha em casa? Você faz mais algum tipo de trabalho além de desenvolver personagens fofos?
Vivo (ou pelo menos tento) exclusivamente dos meus personagens. Trabalho em casa no meu “craft corner” (um canto do meu quarto). Minha rotina é torpe, mas eu tento manter um padrão: pela manhã eu ilustro e escrevo os artigos do .marca e de tarde+noite+madrugada cuido dos meus meninos e meninas.

Volta e meia eu dou uma paradinha para verificar e-mails e novos comentários do blog. Eu respondo a todos os e-mails e comentários que recebemos, seja no .marca, no flickr ou em qualquer canto virtual. Nunca deixo de responder a uma mensagem, pois penso que se a pessoa dedicou alguns minutos do seu dia para me mandar uma mensagem, o mínimo que eu posso fazer é retribuir esse gesto com muito carinho e atenção.

-De todos os bonecos, qual é o seu queridinho?
Foi o primeiro que eu fiz sozinho (ou o segundo do .marcamaria): o Yellow Jellow (popularmente conhecido como “o cabeça de banana” - foto abaixo). Ele foi uma estampa de camisa rejeitada pelo meu grupo de trabalho lá da época da faculdade.

Como eu estava dizendo, ele foi o primeiro boneco que eu fiz sozinho (o primeiro quem costurou - a mão - foi a Aline). Faz menos de um ano que eu costuro e foi com ele que eu senti como é gostoso dar corpo - ou pano - a algo que só estava na minha mente. É muito mágico descobrir que você pode dar concretude a algo que era simplesmente um monte de idéias doidas e rabiscos.

Mas neste momento estou adorando o processo de criação da Vovólima! Há um bom tempo eu sonhava em fazer uma velhinha simpática e serelepe com um coração de jujuba!

-Eu vejo várias pessoas fazendo bonecos originais no exterior, mas aqui no Brasil parece que pouca gente tem se animado a arriscar criações que fujam do convencional. As pessoas reclamam disso pra você?
Algumas pessoas me confessaram que não agüentam mais ver os mesmos bonecos que podem ser encontrados em qualquer revista de artesanato. Acredito que o nosso principal problema é comodismo.

Aquilo que aparece nas bancas de revista ou em programas de artesanices são idéias massificadas - fatalmente, se você achou alguma coisa legal e que valeria a pena ser comercializado, pode ter certeza que outras centenas de pessoas pensaram exatamente o mesmo. É aí que o entrave criativo começa.

Quando ousamos, geramos inovação. Aprendi através da curiosidade que processo de fabricação tende a ser o mesmo, mas o único local que não existe limites é o campo das idéias. Um bom exemplo disso é o próprio mundo do artesanato contemporâneo: quantas pessoas utilizam o mesmo material (p.e. pano e linha) e fazem coisas tão diversas? O que precisamos é ousar mais e não depender de coisas prontas para liberar a nossa criatividade e manualidade.


-Você já teve pedidos para fazer um boneco totalmente óbvio, sem nenhum espaço para criar?
Nunca recebi um pedido assim. Aliás, a única coisa que me falam é: “quero um boneco de (alguma coisa)” - e o restante fica ao meu encargo. Em alguns casos só me alertam sobre algumas precauções, como não colocar um pingulim no boneco porque a avó de oitenta anos o vai receber de presente. Mas faz muito tempo que eu não tenho nenhuma encomenda assim…

-Você considera que a tendência do “feito a mão” é algo que veio para ficar ou é só mais uma das tantas chuvas passageiras que se abatem sobre nós?
O artesanato sempre esteve presente na história da humanidade. O que difere a nossa época das demais é que agora temos espaços maravilhosos para trocar figurinhas entre os criadores e fruidores espalhados pelo mundo, como flickrs, blogs, flogs, fóruns, sites, MSNs, e-mails etc..

Uma tendência que as grandes marcas ainda estão descobrindo e que já se faz presente no mundo do artesanato contemporâneo é o valor da personalização na percepção dos consumidores. Para uma indústria é muito oneroso produzir produtos totalmente exclusivos, enquanto para nós artesãos é uma espécie de “modus operandi” - um padrão. E quanto mais a sociedade se industrializa e se massifica, o artesanato ganha valor. Aliás, o maior inimigo do trabalho artesanal é a falta de cultura, pois uma sociedade aculturada (ou em fase de aculturação) o trabalho artesanal perde o seu valor - vira algo “barato que qualquer um faz”; mas as pessoas não se lembram que apertar botões repetidamente é realmente algo que qualquer um faz.

-Você trabalha num craft room, escritório, atelier? Que nome tem o seu espaço de criação?
Eu trabalho num “craft corner” - um canto do meu quarto. Melhor! Trabalho na metade do meu quarto, mais conhecido como meu muquifo (risos). Não tenho um nome próprio para essa minha zona de guerra (acredite, é uma zona), mas passo praticamente o dia inteiro aqui dentro tentando conquistar o mundo! X)

-Qual é a parte mais difícil: criar, dar vida à criação, encontrar tecidos e materiais interessantes para costurar os bonecos, calcular custos ou vender?
Por incrível que pareça, para mim calcular custos é algo fácil. Sou muito metódico e certinho - sou capaz de saber o quanto que eu gastei de linha em um menino (minha moça acha isso um absurdo da minha parte!). Meu principal problema é ter foco. Penso demais e crio demais! Facilmente me disperso para colocar em prática aquela nova idéia super-mega-boga que eu tive. Vivo em constante monitoração do meu Eu criativo, controlando-o e dando algumas chibatadas com a fita métrica para colocar ele na linha. (risos)

-De todas as etapas - molde, corte, costura, acabamento - qual a que te deixa mais feliz de estar fazendo?
Aqui nós falamos que “entramos em trabalho de parto” quando criamos um boneco. Primeiro a modelagem pode ser rápida ou extremamente complicada (como está sendo o caso da Vovólima), cortar é super rápido, mas na hora de costurar… meu Deus! São braços, pernas, olhos, orelhas, corpos e tudo mais que precisa ser feito individualmente para depois ser costurado junto. Para piorar, aqui a regra é clara: sem costuras aparentes (só quando necessário) - então tudo o que foi costurado, precisa ser desvirado, enchido e montado… após longas horas de muita dor, cansaço e sofrimento, olhamos para aquela coisinha fofinha e sorrimos como se tivéssemos vendo mais um bebê nascendo. É gratificante!

-Uma história engraçada envolvendo um dos seus bonecos:
Todo mundo fica mexendo nos pingulins do meus meninos quando os vêem ao vivo… parecem que nunca viram um pintinho de pano na vida! XD

-Uma curiosidade envolvendo um dos seus bonecos:
Uma coisa que poucos sabem e nunca conseguirão ver, é que em todos os nossos bonecos colocamos um coração de feltro vermelho no seu interior. É um símbolo do carinho e dedicação que temos com o que criamos, fora que um boneco sem coração não conseguiria correr pelo seu quarto quando você não estivesse olhando! (risos)


-Qual o menor boneco que você já fez? E o maior?
O menor bonequinho foi o Angelu (foto abaixo). Ele tem uns dez centímetros de altura, tem pés e mãos com dedinhos. Para você ter noção da escala, um dedo da mão do Angelu tem três pontos (da máquina de costura) de altura por dois de largura. Pior de tudo foi ter costurado quarenta e três desse “gigante” (sério, ficamos traumatizados!!!).

O maior por enquanto será a Vovólima quando estiver pronta. Depois do trauma dos Angelus, fico me policiando para não fazer coisas tão pequenas. Mas ainda quero fazer um Yellow Jellow com um metro e vinte de altura (e sabe-se lá quanto de cabeça). X)

-Um objeto de desejo:
Nhum… difícil essa… quero muito ter um grande objeto de desejo: uma oficina de criação e costura, para poder colocar mais pessoas trabalhando na criação das nossas crianças, tornando-os mais acessíveis.

-Um objeto que você adora e por que você adora ele tanto assim?

Amo de paixão a minha Tia Elna (minha máquina de costura - foto acima). Ela pertenceu à minha avó e agora está com a minha mãe (mas eu me apoderei dela! risos); é uma das primeiras máquinas elétricas portáteis do mundo! Ela nasceu em 1950 e até hoje continua tinindo! É com ela que eu faço todos os meus bonecos (da costura ao bordado). Se não fosse pela Tia, eu não teria como dar panos à minha imaginação! Continuarei usando ela até o dia em que ela desejar se aposentar!

-Se não fosse um cara que dá vida a bonecos, você seria o quê?
Seria um designer gestor de marcas. Formei-me em 2007 em Design e Construção de Marcas (Branding Design, em inglês) e possivelmente estaria por aí fazendo marcas que te fariam gastar dinheiro.

-Um lugar onde seus bonecos iam adorar viver:
Nunca havia pensado nisso… talvez eles adorariam viver ao lado de uma criancinha que os colocasse para dormir ao seu lado no travesseiro, que o considerasse como seu fiel companheiro em todas as brincadeiras, que ficasse ansiosa para voltar para casa e ver aquela carinha de pano esperando por ela. Acho que o melhor lugar é estar com uma criança que ame os meus bonecos e os guarde para sempre (como eu faço com os meus).

-Eu adoro os nomes das suas criações. Você fica muito na dúvida até decidir cada nome? O quem vem primeiro, a personalidade ou o nome?
Eu pego os meus filhos na mão, aperto os meus olhos, observo eles em silêncio e digo: oi, fulano de tal! (risos) Na verdade, durante todo o processo de criação eu fico pensando nas coisas que aquele personagem faria, o que ele gosta ou não, o que ele acha do mundo e no final, quando acabo, o nome já está lá na ponta da língua. A última coisa que eu faço é verificar junto ao INPI se aquele nome possui registro ou não, pois não vou querer rebatizar a criança na hora de fazer o registro da marca (caso tenha uma marca); isso pode causar sérios traumas e crises de identidade que nem Freud resolveria. (risos)

-Um crafter brasileiro tem que ter muito…
… jogo de cintura, criatividade, cultura, imaginação e um enorme amor pelo trabalho que faz, pois quando temos tudo isso dentro de nós, cada pecinha que criamos irradia esses valores para os outros. Ah! Nunca esqueçamos das jujubas (a doçura em cada um de nós!)


Ana Sinhana, confira!

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13 comentários para “Entrevista: .faso - marcamaria”

  1. Eu e a Banana » .marcamaria disse:

    [...] Clique aqui para ler a entrevista. [...]

  2. Fá Giandoso disse:

    Faso é um menino que eu admiro demais. Talentoso, sensível e de um humor maravilhoso.Tá…me desanimo um pouco…o cara costura muito!!! hahahhaha

    Tenho esse bonequeiro como um amigo. Babo mesmo e mostro o trabalho dele pra todo mundo.
    Parabéns Fasito, já já o mundo será todinho seu!!! hahahhahaha

  3. Cih disse:

    Entrevista e entrevistados simplesmente encantadores! =)

    Kiss

  4. Carina disse:

    Sr. Faso é a criatividade em pessoa, me orgulho muito dele e torço mto pelo seu sucesso, que só depénde dele agora. E sim! ele vai dominar o mundo. rsrs..

    bju

  5. Ígor disse:

    Esse é meu amigo Fábio! É um dos maiores artistas que conheci (tanto de talento quanto de metro-quadrado). Continue nesse caminho, pois quando a gente segue os sonhos, o melhor de nós se apresenta! Um grande abraço e parabéns pela matéria!

  6. Mila Bomtempo disse:

    ADOREI!!!

    Faço minhas as palavras da Fá! Nunca pensei que fosse cruzar neste mundão craft com um menino tão talentoso… e tão sensível, tão gente boa!

    Muito sucesso pra vc e sua menina, .Faso!

    =*s

  7. JAM disse:

    Peralá senhor faso !!!

    idéia rejeitada pelo grupo !?!?
    xD

    vc sabe pq … mas veja o lado bom … por não ter sido usado pelo grupo vc partiu dele praticamente … não foi tão mal assim …

    e fiz parte do grupo do faso, mesmo qdo só tínhamos nós 2 praticamente, passamos por muitas maluquices juntos, como embalagens e outras peças “impraticáveis” segundo alguns que não conseguiam visualizar nossas idéias … mas depois de prontas, surpreendiam …

    bem, acho q depois de tanto um zuar com o outro, e as brigas … mantemos nossa amizade … e ele sabe q irei acompanhar bem esse processo de desenvolvimento dele.

  8. .faso disse:

    O Jam! falaram que ele era muito lúdico… mas foi bom! Meu segundo bonequim! XD

    Abraços,

    .faso

  9. Talita Dalprai disse:

    Adorei! clap clap clap!

    Nossa.. resposta que a gente quer ouvir! =D

    Parabéns, por tudo que é, fez e vai fazer!

    Vida longa aos bonecos! =)

  10. Sybil disse:

    que bacanaaaaaa
    nossa, eu já gostava mto do Faso e agora eu adoro mais ainda!! tão simpático, tão natural, tão cheio de carinho no que faz que dá pra sentir nas respostas…
    parabens e muiiiiito sucesso pra voces!

  11. Tati Guidio disse:

    rapaz!! adorei seu trabalho!!!!

  12. leilalampe disse:

    Um coraçãozinho dentro dos bonecos?
    me apaixonei!!!!
    parabéns pelo belo trabalho Faso!
    Abs

  13. BananaCraft» Arquivo do Blog » .mundesign - Um site no estilo faça-você-mesmo, dedicado às pessoas que adoram coisas feitas a mão! disse:

    [...] ao vídeo da vida enquanto ela passa. Quer participar? Vai lá no .mundesign! Para saber mais: -A entrevista com o Faso aqui no [...]

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